Meus quinze anos

 Decocional, 7 de maio de 2023

Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia! 
1ª Coríntios 10:12

15 de abril de 1969. Terça-feira. Hoje faço 15 anos. Há mais de um motivo pra não ter festa. Um deles é falta de dinheiro, e eu compreendo perfeitamente. Outro é porque eu sou homem, e em 1969 só tem festinha chique pras meninas, não pros meninos: esses nem fazem a mínima questão, querem mais é chegar aos 18 pra ver filmes de mulher pelada...

Este ano não vai ser igual àquele que passou... O homem vai chegar à Lua, e tem muita gente que não vai acreditar nunca. E não acreditar que o homem chegou lá é café pequeno; tem gente que nunca vai acreditar em Deus, que ele é o Criador de tudo que existe no universo. E tem gente que até admite que ele é real, mas não leva ele a sério, o que é pior do que duvidar de sua existência... É gente que acha que nunca vai cair...

Vamos mudar pro Rio de Janeiro. Situação difícil aqui pra nós. Tivemos que vender a casa, quase todos os móveis e até um monte de maturutagens¹. Tivemos que nos desfazer de itens raríssimos que daqui a muitas décadas muita gente vai pagar a peso de ouro... Mas a vida é assim, a gente não valoriza o que tem até perder...

No ano que vem eu começo a trabalhar numa fábrica de plásticos, em São Cristóvão. Vou trabalhar lá três anos, depois vou ser sumariamente demitido porque a empresa vai passar por uma séria contenção de despesas, e só os melhores vão ficar... E eu só vou ser contado entre os melhores no primeiro ano e no seguinte, depois vou relaxar... Como já disse, a vida é assim, a gente pensa que por estar de pé não precisa tomar cuidado pra não cair, e a gente cai...

Não vai ter uma baita duma festa de aniversário pra mim hoje. Talvez tenha guaraná, Mirinda² e Pepsi com um bolinho que minha mãe vai fazer só pra não passar em branco. Meus irmãos vão cantar Parabéns pra “você”... E esse você entre aspas é eu... Ah, você sabe... Hoje vou trabalhar no centro da cidade, distribuindo o Diário Oficial da União e recolhendo malotes. Não sei também se hoje tem aula... Tem sim, é de noite, no Ginásio Alvimar Silva, vizinho do cemitério...

Falando nisso, tenho um medo idiota de passar sozinho por ali à noite. Se tiver que passar, passo a duzentos anos-luz por hora, só pra não correr o risco de ser apanhado por alguma alma penada de plantão... Depois da aula, a gente passa por ali em bando: cinco ou seis bobalhões que não sabem que os moradores daquele lugar não podem mais fazer mal a ninguém... Mesmo assim a gente fica no maior cagaço...

Alguns “moradores” dali aproveitaram a vida ao máximo e não caíram, apenas se deixaram recolher pela terra e pelo Criador. Outros foram pessoas que ainda tinham muito pra viver, mas não se deram conta que suas vidas poderiam ir mais longe se tivessem só um pouco mais de cuidado... Outros, eu não sei por que foram pra lá... Mas que importa, né?

Muito do que eu ainda não sei sobre o Criador, só vou saber daqui a mais ou menos onze anos, quando me enturmar com uma galera que já conhece ele desde não sei quando... E vai ser bom...

Oremos.

Senhor, cuida do teu povo, salva nosso povo e nossa nação. Em nome de Jesus. Amém

Decottignies

Você já orou pelo Brasil hoje?
¹ Maturutagem
O mesmo que tralha, quinquilharia, bugiganga. Não tem no dicionário...
² Mirinda
Refrigerante sabor "laranja", que nem a Fanta.

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