Pescador


A canção Pescador, de Sérgio Pimenta, me transporta de volta aos anos 1960. Desde não sei quando, gosto de pescar. Desde os oito, nove anos, não sei. Tem até marchinha de carnaval pra lembrar...
Domingo é dia de pescaria,
Oi, lá vou eu, de caniço e samburá,
Maré tá cheia, fico na areia,
Porque na areia dá mais peixe que no mar.
(Haroldo Lobo / Milton de Oliveira)

O caniço era um pequeno e fino pedaço de bambu, de uns 90 a 120 centímetros... Samburá, eu nem sabia o que era, aprendi depois.  Pra guardar o pescado, servia uma latinha velha, de leite em pó, óleo de soja, sei lá...
No armarinho, a gente comprava náilon 10 e anzol mosquito. Às vezes, um pedacinho de chumbo também, quando a gente não arranjava com outros pescadores...
A isca era camarão, que também a gente conseguia, ou aqueles caracoizinhos das pedras que tinha nas beiradas da maré. Tadinhos...
Claro que pegar o peixe era divertido. Só que eu gostava mesmo era da farra. Não tava nem aí se voltaria pra casa com ou sem peixe, mas quase sempre conseguia levar alguns. Cada um bitelão assim, ó... Tinha uns que chegavam a medir – pasme! – quase dez centímetros... É sério, não tô mentindo não... E de quando em vez, eu pegava muito peixe: sete, oito, dez... A minha mãe é que tratava e fritava, e eu saía na rua comendo, com ou sem farinha...
E o que a gente pegava? A variedade também era grande. Mas o que mais a gente gostava de pegar era caratinga¹, vermelho, chicharro, carapau e maria-doida²... Pode ser que alguns, você não conheça. Vou “traduzir” no rodapé.
Tinha também uns que a gente não gostava muito de pegar, mas pegava. Maria da toca, que a gente chamava de “morêia”³, e o infeliz do baiacu, que todo mundo dizia que era venenoso, ninguém queria, e a gente fazia cada maldade com o bichinho, tadinho...
Tinha vez que o mar não tava pra peixe. Mas tava pra budigão, camarão e siri. A gente catava budigão na areia, sururu na lama preta e ostra nas pedras. Camarão, a gente pegava com arrastão ou na maré baixa, quando ele tava escondido debaixo das algas, que a gente chamava de limo. Siri, era com puçá4 ou jereré5...
Falei que era por divertimento, mas também já fui, em tempos difíceis, de bote ou canoa, pegar o rango lá na maré... Tempo bom que não volta mais... 
Jesus recrutou pescadores de peixes pra serem pescadores de homens. Metáfora, é claro. Pessoas não são peixes, ainda que a gente encontre por aí uma pá de traíras, mas isso é outra história... Ele tava falando de salvação. E você sabe, né? Peixe que se deixa pescar não tem salvação, já era, vai pra panela ou pra frigideira, vira moqueca ou ensopado. Pescadores de homens eram aqueles que ele encarregou de ir por todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura.
O mundo tá assim de criaturas que não sabem que precisam ser salvas. Algumas até sabem, mas não admitem, têm uma baita dificuldade pra entender a mensagem do evangelho, se debatem que nem robalos na tarrafa e até conseguem fugir de volta pras profundezas. Tem umas que são que nem marias da toca: mordem a isca e ficam agarradas no anzol à espera do pescador, que lhes tira o anzol da boca e taca lá na latinha ou no samburá... Parece que o bacalhau é assim também...
Porém, não é todo evangelista que sabe ser pescador de homens. Tem uns que têm um jeito bem equivocado de propagar a mensagem e só conseguem afugentar os peixes, como se as boas-novas fossem péssimas notícias.
E tem pescador que pensa que tem que mostrar serviço de qualquer maneira e por isso acaba metendo os pés pelas mãos... Não se toca que o Espírito Santo é que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo... (João 16:7 a 11)
Isso vai mais longe, mas vou parar por aqui...

Oremos.
Deus abençoe você.
Decottignies
__________________
1 – caratinga – o lambari do mar.
2 – maria-doidamamarreis.
3 – morêia – era como a gente chamava a maria-da-toca. Com acento circunflexo pra você não pronunciar o "e" com timbre aberto como em ideia e sim fechado 
como em sereia... Aliás, tinha moréia também, não das grandes, e a gente chamava de murucutuca... parecia uma cobra. Tem até quem chame de cobra d'água...
4 – puçá – instrumento de pesca.
5 – jereré – outro instrumento de pesca que, aliás, aparece na música De papo pro ar, de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano. Se procurar no Google, você acha interpretações de vários famosos, como Sérgio Reis, Nelson Gonçalves, Ney Matogrosso e outros...

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