Namorar

Década de setenta. Século passado. O Colégio Santa Mônica ainda era Externato São Judas Tadeu. Em vez de ensino fundamental e ensino médio, era primeiro e segundo grau.

José Carlos, professor de Português, conta para uma turma de sétima série quando emprestou de um colega uma gramática difícil de conseguir nas livrarias. Leu, estudou e fez bom uso da gramática emprestada, mas pra não perder a amizade do colega, prometeu devolver depois de mais alguns dias. Tipo “me deixa ficar com ela só mais um pouquinho”. O colega deixou.

Nos dias que se seguiram, José Carlos nunca ia dormir sem folhear e ler a gramática emprestada e aproveitar pra memorizar quanto pudesse do seu conteúdo pra aproveitar em suas aulas...

- Antes de dormir, eu ficava namorando a gramática...

Dá até pra imaginar José Carlos deitado de lado morrendo de sono e olhando para a gramática na mesinha de cabeceira...

Por fim, devolveu a gramática ao colega. Se conseguiu encontrar outro exemplar em alguma livraria, a turma não ficou sabendo... Mas todos gostaram de ouvir sobre o caso de amor entre José Carlos e a gramática...

Muito tempo depois, já no presente século, Vânia Bastos usa numa de suas canções o verbo namorar se referindo não a uma pessoa, mas a uma cidade:

Namoro São Paulo da janela do avião. Verso da música Linda de Lua. Mais recentemente, Seu Jorge canta “Tô namorando aquela mina, mas não sei se ela me namora”. A canção é Mina do condomínio.

E aí me lembro de Regina Duarte, a eterna namoradinha do Brasil. Eu fui um dos namorados dela, e ela sabe disso. Não, claro que ela não me conhece! Aliás, muitas das minhas ex-namoradas nunca souberam que eu fui namorado delas... Não, eu não sou maluco; mas se sou, não sou só eu, somos muitos, milhares, milhões...

Não vou citar nomes, mas já namorei muitas atrizes do cinema e da TV. Ah, tá bom, vou citar alguns nomes. Jane Fonda, Brigitte Bardot, Sofia Loren, Michelle PfeifferJulia RobertsSandra Bullock... Sim, algumas brasileiras também, além de Regina Duarte...

A gente passa a vida namorando. Dificilmente, uma pessoa não tem sonhos de consumo, não aspira conseguir algo ou alguém pra chamar de seu... E a gente também, sem ter a menor ideia, passa a vida povoando o imaginário de outra pessoa, de outras pessoas. Em alguns casos, tais pessoas criam coragem, chegam perto e lançam a rede... Ou jogam a isca. Claro que você está entendendo...

Muito do que, concretamente, se tem hoje se deve a alguém que passou a vida se empenhando pra tornar seu sonho uma realidade. Da mesma forma, muito do que não se tem, não se tem porque alguém desistiu do sonho, ou alguéns desistiram. Claro que eu sei que alguém não tem plural! Para de perturbar!

O dia dos namorados passou. Dependendo de quando você vai ler isso, será um dia, dois, três, sei lá, meses, semanas... Mas esse dia vai voltar. E até voltar, você vai continuar acalentando um sonho de consumo ou namorando alguém... Ou o contrário... Você pode ser presença obrigatória nos sonhos de alguém... Alguém que namora você, e você não sabe... Vai ver, você pode ter inspirado versos, poemas, canções, romances... Já pensou?

Nós, os religiosos, temos a missão de apresentar Jesus a pessoas que não têm a menor ideia de quem ele é, do que ele fez por nós e por essas pessoas e das maravilhas que ele pode e quer fazer por elas. Sim, esse papo sobre namoro era pra chegar até aqui. No “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15).

Não tem nada a ver? Que pena...! Eu achava que tinha...! Então me desculpe ter tomado o seu tempo. Seja como for, Deus abençoe você...



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